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As palavras que usamos em uma escrita terapêutica não são neutras


Foto: Content Pixie/ Unsplash


A linguagem nos acompanha sempre. Quando lemos um post no Instagram, conversamos com alguém ou respondemos uma mensagem no celular, por exemplo. E mesmo se passássemos um dia inteiro sem isso, a linguagem ainda estaria dentro de nós, materializando e encadeando nossos pensamentos.


Talvez seja por isso que a gente não pare para observar o que dizemos. A linguagem se torna algo banal demais para merecer atenção.


Mas ela merece.


Como disse o psicanalista Jacques Lacan: o inconsciente é estruturado em linguagem. E, se quisermos nos conhecer, não podemos excluir do processo justamente esse desconhecido em nós.


As construções que usamos para explicar um sentimento, um evento… enfim, nossa vida, influem na própria maneira como vivemos.


Quando você vai contar algo que aconteceu, você é um sujeito ativo ou passivo - que apenas recebeu o que fizeram contigo? Você percebe como algumas expressões que você utiliza vêm carregadas de preconceito, críticas veladas e/ou resumem discursos que você nunca parou para refletir mas que prossegue reproduzindo? O quanto dessa repetição te beneficia? O quanto dessa repetição te fere?


Entenda como entrar em contato com isso a partir da escrita terapêutica!

Um dos momentos mais impactantes do processo de escrita terapêutica é deixar o texto “dormir na gaveta” por um tempo para depois, então, ler o que escrevemos quando estávamos tomados por alguma emoção ou provocados pelas perguntas.


É aí que, pegando as pistas que nós mesmos nos deixamos, podemos ter grandes insights sobre o funcionamento da nossa personalidade e de como agimos e reagimos ao mundo.


Atenção às palavras escolhidas!

Nenhuma das palavras que escolhemos para narrar um acontecimento está ali por acaso.

“Em geral se acredita que se é livre para escolher as palavras com que se revestem os pensamentos ou as imagens com que eles são disfarçados. Uma observação mais atenta mostra que outras considerações determinam essa escolha e que, por trás da forma de expressão do pensamento, vislumbra-se um sentido mais profundo, muitas vezes não intencional” - Freud em Sobre as Psicopatologias da vida cotidiana.


O próprio Freud cita o exemplo de ouvir, em meio às discussões teóricas das quais participava, alguém usar repetidamente a expressão: “Quando uma coisa de repente nos atravessa a cabeça, …”. À época, esse falante havia recebido a notícia de que uma bala havia atravessado o capacete que seu filho portava. Esse era um assunto que ainda remexia os conteúdos internos do homem e o acompanhava até quando ele estava a realizar outras tarefas e a conversar sobre outros temas.


Lendo nas entrelinhas

Analisar as palavras que escolhemos também nos dá a chance de identificar nossas dores e, inclusive, ressignificar questões que outrora nos incomodavam. Veja esse exemplo que poderia estar escrito no diário de alguém:


“Fui abandonado pelo meu pai”.


O autor da frase aparece como um sujeito passivo, enxergado como um objeto barato, passível de ser abandonado pelo pai em qualquer lugar. Esse é o possível sentimento mantido pelo autor da frase.


Nessa leitura analítica, podemos nos deparar com nossos próprios sentimentos ocultos.


Quando substituímos a frase anterior por: “Meu pai me abandonou”, por exemplo, ainda conseguimos ver a dor do abandono, mas o sujeito passa a ser o pai, que fez o que fez independente do valor do filho, e sim por seus próprios motivos. A “culpa” não parece pesar mais tanto sobre as costas de quem escreve.


Ao repetir a mesma história, contada sob a mesma perspectiva e usando sempre os mesmos termos negativos, depreciativos ou estereotipados sem analisá-los, estamos nos fechando à possibilidade de pensar diferente e de sair do ciclo de dor, frustração, culpa e mágoa (muitas vezes direcionados a nós mesmos).


Essa é uma excelente oportunidade de revisar a sua história e relembrar que o papel e a caneta estão em suas mãos e que a lente com a qual vemos as coisas pode sempre mudar!


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