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Ifigênia e a fidelidade cega ao masculino

Atualizado: Ago 12


A história de Ifigênia faz parte do conjunto de histórias lendárias sobre a Guerra de Troia.


Ela fala das perspectivas que criamos sobre quem devemos ser e do que devemos fazer para chegar lá. Fala das falácias de uma jornada do herói artificial, que sustentamos como se fosse a luta de nossas vidas.


Nela, a vida é vista como um objetivo a ser alcançado e não como algo pronto a ser experienciado. Direcionamos nossa energia psíquica para o futuro e para o olhar que o mundo externo tem sobre nós. Isso gera ansiedade, síndromes como o burn-out e até mesmo a depressão.


A jornada do herói - tal como é - é uma falácia compartilhada socialmente que, em algum momento, traz a sensação de traição: nos traíram e atraíram com uma recompensa que nunca alcança seu potencial pleno e traímos a nós mesmos em nome desse objetivo.


Existe um nome para isso: vitória de Pirro. É aquela vitória conquistada a altos custos e perdas, que mais se assemelha a uma derrota.


O escritor e analista junguiano John A. Sanford reflete sobre o heroísmo em um de seus livros. Para ele, os impulsos negativos explosivos que seriam tratados como uma psicopatologia em tempos comuns, são estimulados e recebem o status de heroísmo em uma situação de guerra.


Já parou para refletir sobre isso? O heroísmo, o ato heróico e o significado de sermos um herói ou uma heroína são sempre conceitos criados socialmente, não-prontos em seu sentido.


Por isso pense bastante se você encara a vida como uma jornada de batalhas que devem trazer sempre uma recompensa no final. Esse final, no caso do herói, é a morte, quando ele é consagrado.


O princípio feminino é uma força do Ser. O masculino, do Fazer. Será que você se sente completa(o) apenas sendo você ou está sempre buscando fazer e conquistar coisas para ter a sua existência autorizada?


Ifigênia era a filha de Agamemnon, o líder da Guerra de Troia e irmão de Menelau, cuja esposa Helena havia sido sequestrada pelo seu amante, o Príncipe Páris. O orgulho de Menelau estava em jogo e todas as frotas se reuniam para invadir Troia, mas uma calmaria mortal pairava sobre o mar, e eles não podiam navegar.


O vidente Calchas, um traidor de Troia, avisou a Agamemnon que Ártemos, a deusa dos ventos, estava furiosa por suas afirmações de que ele era um atirador melhor do que ela. A deusa sugeriu que só traria ventos se Agamemnon sacrificasse sua própria filha.


Agamemnon não pensou duas vezes e colocou seu orgulho e status aos olhos do mundo, acima de seu amor por sua filha. Pediu que sua esposa Clitemnestra trouxesse Ifigênia para Aulis, onde as embarcações aguardavam os ventos para zarpar. Ele enganou as duas sob a promessa de que Ifigênia se casaria com o lendário herói Aquiles.


Ifigênia chegou alegremente pronta para a recompensa de ser uma boa filha para o pai. Mas logo descobriu que havia sido atraída para a morte. Nesse momento viu toda a traição do pai e a aridez da busca instituída pela mente coletiva - a busca por validão, aprovação social e status a qualquer preço - e decidiu seu próprio destino.


Quando Aquiles se ofereceu para protegê-la, Ifigênia escolheu a morte. Mas, neste momento, que olhava tudo de cima, acolheu a moça e a transformou em uma lendária corça.


Quantas vezes você já se submeteu a uma jornada heroica apoiada pelo discurso coletivo, por padrões definidos pelo homem, com o objetivo de conseguir recompensas que vêm atreladas de perdas? Perda da saúde mental, perda do tempo para a sua família, perda da alma e de fazer o que realmente gosta... Tudo para se sentir validada(o) aos olhos da sociedade e dos ideiais construídos culturalmente?


São as vitórias pírricas do cotidiano.


Esse mito nos conta que sempre dá tempo de se reconciliar com a divindade interior, a partir do momento em que tomamos consciência, pegamos nossas vidas em nossas próprias mãos e fazemos escolhas baseadas em quem realmente somos.


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