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Jejum: alimento para o corpo, a mente e o espírito

Este texto foi publicado originalmente na Revista Inspira, edição #4, janeiro de 2020.


O jejum intermitente tem sido o queridinho das pessoas alinhadas ao estilo de vida fitness. Pode não ser o seu caso, mas essa prática ainda pode ser sobre você. Entrevistamos o Dr. Wesley Schunk, médico nefrologista entusiasta da Medicina Integrativa e propagador do jejum intermitente.

Você consegue controlar o que sai da sua boca? E o que entra?


Autocontrole é um dos principais componentes da inteligência emocional. É a capacidade de manter uma conversa interior constante que repele as respostas reativas e irrefletidas. Já parou para pensar o quanto podemos reagir impulsivamente quando o assunto é comida?


O jejum é uma prática milenar que tem voltado ao centro das discussões sobre saúde. Em 2016, o biólogo japonês Yoshinori Ohsumi ganhou o prêmio Nobel de Medicina justamente por associar em seu estudo a adaptação à fome à consequente renovação celular e limpeza do organismo. Tudo leva a crer que quem jejua vive mais.


Consenso entre Cristo, Maomé, Moisés e Platão, o jejum é tido como fonte de inúmeros benefícios: físicos, mentais e emocionais. Para o escritor americano Mark Twain: “Um pouco de fome pode realmente fazer mais pelo doente médio do que os melhores remédios e os melhores médicos”.


Mas ficar sem comer realmente faz bem para a saúde? E, se sim, como isso é possível? Sempre que ficamos doentes ouvimos que é preciso que nos alimentemos direito. Quem não lembra da tradicional receita da canja de galinha cura-tudo da vovó? Mas isso é outra questão que os estudiosos do jejum derrubaram. Ficar sem comer lhes parece mais eficaz diante de enfermidades.


Durante o período paleolítico, abster-se de comida por longos períodos era a rotina de nossos ancestrais. Sem comida estocada em supermercados, eles precisavam passar dias caçando o que comer. Dessa forma, podemos dizer que o DNA humano está preparado para aguentar algo de jejum.


Acontece que você não precisa passar dias sem comer (e nem é recomendado que faça isso sem acompanhamento médico), bastam algumas horas para ver verdadeiros progressos. Os médicos Wesley Schunk e Carla Muriel são especialistas no Jejum Intermitente, método que intercala períodos de jejum (de 12 a 18 horas diariamente) com uma janela de tempo para alimentação. Em seu curso on-line Milagre do Jejum e nas redes sociais eles produzem uma enxurrada de conteúdos informativos sobre a prática.


Nas páginas seguintes, o Dr. Wesley Schunk concedeu uma entrevista exclusiva à Revista Inspira esclarecendo algumas das principais dúvidas e modos de fazer acerca do jejum intermitente, além de compartilhar um pouco do que observa de sua perspectiva de profissional e estudioso do assunto.


Muito além do objetivo do emagrecimento, esse método é sinônimo de autocura e autodescoberta em muitos níveis.


Inspira: Poderia se apresentar para os nossos leitores?

Wesley Schunk: Me chamo Wesley Schunk, sou médico nefrologista, pós-graduado em Nutrologia, Prevenção e Tratamento de Doenças Relacionadas à Idade, além de ser entusiasta da Medicina Integrativa. Possuo diversos cursos de nutrição esportiva e qualidade de vida, e utilizo meus conhecimentos técnicos e paixão pelo bem-estar para ajudar meus pacientes a conhecerem melhor seu corpo físico e o emocional, seus limites e necessidades, oferecendo as melhores armas contra estresse, depressão, ansiedade e doenças em geral. Tenho uma clínica em Vila Velha, no Espirito Santo, e também atendo em São Paulo. Dedico meu tempo em disseminar conhecimentos sobre saúde e estilo de vida através da Internet, nas minhas redes sociais e na tentativa de alcançar e impactar o máximo de pessoas também criei um curso on-line chamado Milagre do Jejum. E, no primeiro semestre de 2020, estarei lançando meu primeiro livro sobre Jejum Intermitente.




Por que você acredita que jejuar faz tão bem para a saúde, a ponto de ter lançado um curso sobre o assunto - o Milagre do Jejum?

Acredito no poder do Jejum por ser algo natural para o nosso corpo, está no nosso DNA, afinal só evoluímos e sobrevivemos por essa nossa capacidade nata de passar longos períodos sem se alimentar. O Jejum Intermitente trata-se de uma prática milenar realizada ao longo de toda a evolução da espécie humana.


Alvo de diversos estudos sérios e conceituados, hoje já podemos afirmar seus enormes benefícios a saúde. Em 2016, Yoshinori Ohsumi ganhou o prêmio Nobel de Medicina, seu estudo comprovou que a restrição alimentar auxilia na renovação celular, ou seja, ajuda na limpeza interna do organismo.

E minha prática clínica me confirma, pois, além de ser muito bem aceito pelos meus pacientes, eu obtenho resultados maravilhosos.

O ser humano foi programado para o jejum? Isto é, durante alguns dias sem comida, não é possível que percamos nossa disposição, humor e até comecemos a sentir dores de cabeça?

Sim, o ser humano está geneticamente capacitado e adaptado ao jejum, o que ocorre é que essa enorme influência da Indústria Alimentícia e a praticidade que mundo moderno exige, mudaram o rumo dessa história. Um exemplo comum é que a grande maioria das pessoas naturalmente acorda sem fome, mas se força a comer por ter a crença de que o café da manhã é a principal refeição.


Ao contrário do que se imagina, o jejum é um período programado de descanso, dando a chance para que o corpo consiga fazer suas reparações internas necessárias, ou seja, o jejum aumenta significativamente a sua energia e disposição, pois o corpo não precisa focar e despender suas energias em fazer a digestão como quando nos alimentamos de 3 em 3 horas.


A dor de cabeça ou até alteração de humor são sintomas clássicos de abstinência do açúcar e podem ocorrer no início do jejum, por isso, antes de iniciar essa prática, é fundamental mudar o estilo da alimentação, reduzir carboidratos refinados, açúcar e produtos alimentícios, ou seja, comer comida de verdade igual aos nossos avós.


"Acredito no poder do Jejum por ser algo natural para o nosso corpo, está no nosso DNA, afinal só evoluímos e sobrevivemos por essa nossa capacidade nata de passar longos períodos sem se alimentar" - Wesley Schunk.

Qual é a sua opinião médica sobre jejuns mais longos, de 3 ou mais dias?

Jejuns mais longos são mais benéficos para a saúde, mas esses somente podem ser feitos com acompanhamento e seguindo algumas orientações. Frequentemente tenho pacientes que fazem jejuns longos por até 40 ou 60 horas e quando terminam se sentem muito mais fortes, determinados e felizes. No Brasil, essa prática ainda está sendo difundida, mas em países como a Alemanha já existem clínicas que internam pacientes com diversas doenças e que passam 14 dias em jejum recebendo apenas água, e os resultados são impressionantes. Doenças como Diabetes tipo 2, Obesidade e hipertensão arterial são praticamente curados.

Quantas horas de jejum você considera que seja o saudável? E quantas vezes por semana podemos praticá-lo sem danos à saúde?

Não existe um tipo melhor ou mais saudável, e sim o protocolo mais adequado para seus objetivos e necessidades, podendo ser jejuns curtos – de 16 ou 18 horas diariamente ou de 24 horas uma a duas vezes por semana – e ainda os mais longos, quando tem indicação.

A partir de quanto tempo praticando esse jejum intermitente é possível observar o emagrecimento? E esse emagrecimento advém somente da prática do jejum ou é preciso combiná-la com atividades físicas para obter resultados?

Para o emagrecimento, a partir da primeira semana é possível notar uma melhora bem significativa fazendo jejuns de 16 horas. Para otimizar os resultados necessariamente precisa mudar a alimentação e associar a uma prática de atividade física para potencializar ainda mais a perda de peso com qualidade.


Como o jejum intermitente age internamente em nosso corpo nos ajudando a emagrecer, entre outras coisas?

No período de jejum, os níveis de açúcar do sangue caem. Para manter o organismo funcionando normalmente, o corpo usa uma outra via para adquirir energia, que são os corpos cetônicos – nada mais que as gorduras estocadas –, e aí que a mágica acontece, nosso corpo vira uma verdadeira máquina de queimar gordura.


No mundo moderno, comemos e ingerimos muito mais calorias que gastamos, com isso acumulamos essa energia em forma de gorduras, os triglicerídeos no fígado e na camada adiposa.


O jejum é uma ferramenta poderosa para virar essa chave no corpo e começar a mobilizar e queimar esses estoques.


Além de ser nesse período de descanso que o corpo consegue se reorganizar, fazer uma verdadeira faxina no corpo, gerando autofagia, melhorando a sensibilidade do corpo a hormônios como a insulina e leptina (hormônio da saciedade).

Quais são os benefícios do jejum para além do emagrecimento?

Os benefícios do jejum vão muito além do emagrecimento de forma rápida, segura e eficiente. Essa prática é capaz de melhorar a saúde física, mental e espiritual. Dentre os diversos benefícios, além da perda de peso, estão: aumento de energia e vigor físico, fortalecimento da imunidade, melhora cognição e memória, promove autofagia e renovação celular livrando o corpo de células danificadas, reduz o risco de doenças neurodegenerativas, modula e aumenta o hormônio da saciedade (leptina), diminui a insulina e controla o açúcar no sangue, diminui os marcadores inflamatórios, aumenta a longevidade e quem pratica garante que fortalece a fé e a conexão com o Divino.


Quais as diferenças nos resultados de quem pratica o jejum de 12h, o de 16h e o de 24h?

Basicamente, para se ter os benefícios do emagrecimento, os jejuns acima de 16 horas são os ideais, lógico que para os iniciantes é aconselhável a começar pelos mais curtos como os de 12 e 14 horas. O jejum de 24 horas para cima é fantástico em questão de detoxificação do organismo, autofagia (verdadeira faxina onde células danificadas ou velhas são eliminadas), melhora inflamação sistêmica, melhora a sensibilidade a insulina e ativa o dom da longevidade.


"O jejum é um período programado de descanso, dando a chance para que o corpo consiga fazer suas reparações internas necessárias" - Wesley Schunk.

Há contraindicações? Quem não pode praticar o jejum? Visto que o jejum implica na diminuição da insulina, a prática é nociva para diabéticos ou para pessoas com outros tipos de doenças crônicas?

As contraindicações são para gestantes, lactantes nos primeiros meses, diabéticos tipo 1, portadores de transtornos alimentares como bulimia e anorexia, pessoas com baixo peso ou magreza excessiva, idosos sarcopênicos e crianças.


Como o jejum diminui a insulina, ele é excelente para quem tem Diabetes tipo 2 e todas as doenças relacionadas a ela como obesidade, resistência à insulina, doenças neurodegenerativas e muito mais.


No caso de diabéticos em uso de insulina, o indicado é fazer acompanhado por um médico, exatamente porque as doses do medicamento terão que diminuir semanalmente, o que é muito benéfico para o paciente.

Jejuar faz com que percamos massa muscular?

Isso é um mito. Estudos mostram que o jejum tem a capacidade de aumentar um hormônio chamado GH, altamente anabólico que ajuda o corpo a produzir músculos, aumenta a força e de quebra queima gordura e melhora a qualidade do osso.

Perder massa magra pode ocorrer quando o jejum é feito incorretamente e sem alinhar com uma estratégia alimentar adequada.


"No período de jejum, os níveis de açúcar do sangue caem. Para manter o organismo funcionando normalmente, o corpo usa uma outra via para adquirir energia, que são os corpos cetônicos – nada mais que as gorduras estocadas" - Wesley Schunk.

O caráter restritivo dessa prática tem, por vezes, colocado o jejum na mira de críticas. Qual é a sua opinião sobre esse restritivismo?

Na verdade, o jejum é uma abstenção de alimentos em um período de tempo programado, nesse período existe sim uma restrição de calorias, mas com um intuito e objetivo bem específicos, sem pôr a pessoa em risco, como certas dietas da moda. Já na janela de alimentação a pessoa se alimenta muito bem com refeições nutritivas, o que garante que, no período do jejum, o corpo esteja nutrido o suficiente para se manter saudável. Então dizer que o Jejum Intermitente é restritivo não está correto.


Gosto de defender dizendo que ele não é uma dieta e sim um estilo de vida, pois dieta tem um início e fim, já com o jejum os benefícios são tão grandes que os praticantes incorporam facilmente na rotina.

O que devemos comer antes de praticar o jejum? E depois?

Ideal fazer uma refeição antes de iniciar o período de jejum ou na quebra dele, com comida de verdade, eliminar produtos alimentícios e industrializados, pois como eu digo o corpo precisa de nutrientes e não de calorias.

Quando digo comida de verdade me refiro a: ovos, peixes, frango, raízes, tubérculos, legumes e frutas.


Qual foi o resultado mais surpreendente que você já observou em um paciente por meio do jejum intermitente?

Um dos resultados mais surpreendentes no emagrecimento foi a perda de peso de 18 quilos em 28 dias, totalmente saudável e natural. Já na parte de patologias, além de reversão de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e Síndrome do Ovário Policístico. Houve gravidez em mulheres com dificuldades e que já estavam em tratamento convencional. Tenho também casos de controle absoluto das dores da Esclerose Múltipla, uma doença autoimune.


Há uma frase de Hipócrates, o pai da medicina, que diz que “Comer quando se está doente é alimentar a doença”. Você concorda com o jejum durante situações de adoecimento do corpo?

Sim, concordo. O jejum intermitente é um método eficaz de detoxificação e purificação do organismo e é nessa fase de “descanso” que o organismo consegue se reorganizar, pois o nosso corpo tem uma capacidade muito grande de autocura, basta darmos as condições ideais a ele.


Quando estamos doentes, além de respeitar a fome fisiológica, devemos nutrir o nosso corpo. Pois certos alimentos como açúcar roubam nossa energia no momento que mais estamos precisando de forças para a imunidade dar conta do agente causador da doença.

Essa prática de autocontrole da alimentação também traz consequências para o nosso mundo mental e emocional?

O jejum alivia a ansiedade e o nervosismo, limpa a mente de pensamentos e sentimentos negativos, alivia o stress, aumenta a clareza dos pensamentos e raciocínio, aumenta a capacidade do seu corpo de prevenir e combater doenças e elimina as toxinas que podem fazer você se sentir lento ou deprimido.


Todos meus pacientes dizem que com o jejum se descobriram mais fortes, não se sentem mais reféns da comida, ficaram mais confiantes devido ao autocontrole, aumentam a autoestima e amor-próprio.

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?


Gostaria de dizer uma frase: “Se você não arrumar tempo para cuidar da sua saúde, um dia terá que arrumar tempo e dinheiro para cuidar da sua doença”.


Então já passou da hora de procurarmos a melhorar nosso estilo de vida e prevenir para não precisar remediar.


Uma maneira maravilhosa de promover saúde é praticando o jejum intermitente aliado a uma alimentação saudável e à prática de exercícios físicos.


Então fica o meu convite a todos os leitores que se permitam experimentar o que o descanso programado, no caso, o jejum pode fazer pela sua saúde física e principalmente mental.


Deixe as crenças de lado e venha desenvolver sua autocura através do jejum.