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Intuição existe?

Este texto foi publicado originalmente na Revista Inspira, edição #5, outubro de 2020.


Foto: Yaroslav Shuraev/ Pexels


Intuição é um conhecimento que vem de “algum lugar” com certezas que não se baseiam em argumentos ou na lógica, mas que comumente estão certos. É enxergar com outro tipo de percepção. De onde vem essa estranha forma de sabedoria?

Quando eu era criança, algum adulto me contou que nós, humanos, só utilizávamos 10% da nossa capacidade cerebral. Essa ideia me impactou de um modo que me fez sentir como se eu tivesse superpoderes ocultos, aguardando para serem descobertos nesses 90% adormecidos.


Com o tempo, essa afirmação foi desmentida pela ciência. Seria um mito. Mas continuei acreditando que independente da parte física – que é o cérebro em si –, há um universo ainda a ser descoberto no que diz respeito a nossa mente.


A mente é um conceito metafísico que transcende qualquer explicação biológica até o momento. Afinal, onde está a mente? Ela é imaterial! Se nem mesmo conseguimos localizá-la, é muito provável que ainda estejamos tateando no caminho para entendê-la e que não conheçamos nem um terço do que ela é realmente capaz de fazer. Pensar assim nos faz querer evoluir, melhorar.


Se consideramos que a mente é uma energia e que tudo ao nosso redor também é energia, criamos uma espécie de “sentimento oceânico”, descrito por Romain Rolland como uma sensação de “ser um com o mundo externo como um todo”. Dessa forma, o acesso para uma superconsciência universal onde todas as informações estão contidas estaria livre, só esperando que você desperte um pouco mais da potência reservada à mente.


No filme Lucy (2014) é apresentada uma abordagem fictícia do acesso à essa consciência infinita. Da noite para o dia, a protagonista começa a falar idiomas que desconhecia, acessar memórias antigas com riqueza de detalhes, conversar por telepatia, ler pensamentos e até mesmo entender a origem do universo.


Um exemplo real dessa conexão, que foi também transformado em filme (O homem que viu o infinito, 2015), é o do matemático autodidata indiano Srinivasa Ramanujan, que sentia que sua deusa sussurrava fórmulas em seus ouvidos. Essas fórmulas estavam sendo buscadas há muito tempo por cientistas e Ramanujan as trouxe à vida. De tão complexas, algumas só chegaram a ser comprovadas após a morte de Ramanujan, com o árduo trabalho de outros matemáticos e contribuíram para as áreas da oncologia e da engenharia informática.


Esse saber sutil, um saber que não tem argumentos, não tem explicação e não se apoia em análises ou estatísticas, que simplesmente surge dentro de nós, é uma forma de inteligência que intriga estudiosos até hoje. É a chamada intuição!


O QUE EXPLICA A INTUIÇÃO?

Difícil de ser explicada, uma das melhores definições de intuição é a dada pelo filósofo espiritualista Osho: “Quando o corpo funciona espontaneamente, isso é chamado de instinto. Quando a alma funciona espontaneamente, isso é chamado de intuição”.


Essa espontaneidade surge quando estamos muito conectados a nossa essência e/ou quando o radar da nossa alma é ativado. Como quando somos apresentados a uma pessoa pela primeira vez, quando uma situação complexa nos afeta ou quando temos que tomar decisões cruciais sob grande tensão, conforme comenta o jornalista Malcolm Gladwell, autor do livro Blink: a decisão num piscar de olhos.


Nesse livro, inclusive, o autor lança mão da ideia de que a intuição surge como uma resposta vinda do “inconsciente adaptável”, um novo campo de estudos da psicologia. Esse inconsciente adaptável, segundo Gladwell, pode ser visto como “uma espécie de computador gigante que, de forma rápida e silenciosa, processa muitos dos dados de que necessitamos para nos manter funcionando como seres humanos”. Em outras palavras, ele é responsável por digerir em fração de segundos toda a sabedoria gravada em nossa memória para dar respostas rápidas no dia a dia, tomando decisões de forma sábia, mas no piloto automático.


Muitas vezes, essas sensações intuitivas são tão intensas que se transformam em uma forte inclinação para a ação, nos levando a desviar de um caminho em que costumamos passar sempre, responder mal alguém com quem “o santo não bateu” ou o exemplo das mães que pressentem que vai chover em um dia completamente ensolarado e insistem para que o filho leve o guarda-chuva na mochila.


Como afirma Osho, “o que quer que você decida com o consciente pode simplesmente ser jogado fora pelo inconsciente a qualquer momento, porque ele é nove vezes mais poderoso. Ele não se importa com a sua lógica, com o seu raciocínio, com nada”. A intuição costuma ser soberana.


Muitas vezes, essas intuições podem parecer com verdadeiras previsões nos livrando de algo que poderia ter sido problemático. A explicação para isso é a de que o inconsciente adaptável teria calculado (sem você perceber) a probabilidade de fenômenos que você já viu acontecer se repetirem, lhe impulsionando a tomar a melhor rota.


Essa é uma explicação racional, e a razão pensa em termos de causas e efeitos. Mas, se tratando de um assunto tão transcendental, há também uma visão espiritualista. Nela, a intuição pode ser entendida como uma inteligência não-linear, sem a ordenação habitual do tempo em passado, presente e futuro, sem a ordem cronológica de uma causa que gera uma consequência. Por isso, ela seria capaz de dobrar misteriosamente a linearidade, trazendo o acesso de informações de um tempo distante, por exemplo. Será?


SOMOS TODOS INTUITIVOS

O assunto ainda é bastante misterioso e intrigante do ponto de vista científico. Há quem diga que todos temos potencial para a intuição, mas que muitas vezes colocamos barreiras. Essas vendas que bloqueiam nossa visão interior podem ser: ser bombardeado de informações externas o tempo todo, ser uma pessoa ocupada demais ou cética demais.


Vivemos em uma cultura dominada pela lógica. Qualquer coisa que fuja disso, como a arte, por exemplo, é julgada e desvalorizada pela maioria e pelo próprio modus operandi da sociedade. Durante a vida, as habilidades as quais vamos sendo expostos demandam sempre a razão. Mas integrar os dois polos de inteligência – razão e intuição – não nos fará fracos. Essa é a receita para a verdadeira inteligência. “A intuição é algo muito poderoso, mais do que o intelecto”, quem disse isso foi um dos maiores inventores e magnatas americanos: Steve Jobs.


Há uma expressão que diz que tem gente que só vive do pescoço para cima: aquela pessoa que só pensa em termos lógicos, matemáticos, nas ações e reações. Além de gerar ansiedade, essa postura mental provoca uma desconexão da nossa tendência natural à leitura das energias, da intuição e da experimentação da vida no mundo.


Mas é possível reverter isso. Pois da mesma forma que fomos ensinados a pensar de maneira lógica, podemos também desenvolver uma capacidade intuitiva. Isso seria um trunfo a mais em um mundo que só valoriza um lado da moeda (o racional). Desenvolver a intuição é voltar a um estado de conexão consigo, de despertar seu poder pessoal e de viver de acordo com sua própria verdade, sem medo, pois a coragem reside nessa sabedoria mágica.


INTUIÇÃO x PARANOIA

Vale lembrar que às vezes, quando não estamos totalmente preparados para receber essa intuição, podemos projetar nossas próprias crenças, medos, interesses e sentimentos conflitantes nessa inteligência sutil e acreditar que estamos recebendo mensagens que acabam por nos causar imensa paranoia. Isso não é intuição!


De acordo com a médium norte-americana Laura Lynne Jackson, sua experiência mostrou que a verdadeira intuição nunca vem acompanhada de emoção, dúvida ou terrorismo. Saiba separar a confusão da sua mente da sua sabedoria interior.