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Afrodite: a deusa negada

Atualizado: 15 de abr.


Capa do episódio Afrodite: a deusa negada do Podcast Imago Mundi. Obra de arte reproduzida: O Nascimento de Vênus, de William-Adolphe Bouguereau
Afrodite: a deusa negada - Podcast Imago Mundi - Inspira

Qual é a primeira imagem que vem à sua cabeça quando escuta os nomes “Afrodite” e “Vênus”?


É uma imagem hipersexualizada, uma destruidora de lares, uma femme-fatale, uma prostituta?


Nem sempre a imagem da deusa do amor esteve relacionada a essas características. Isso faz parte de um processo histórico lento, em que Afrodite passou do culto à negação.


Mesmo assim, Afrodite é uma das deusas que mais sobreviveu ao tempo na cultura de mídia.


Todo mundo já ouviu falar sobre essa deusa. Bem ou mal representada, ela está personificada em todos os lugares: nos livros, no cinema, no teatro, na TV... até mesmo em casa.


Afrodite representa aspectos importantes que constituem a subjetividade humana, pois ela representa uma imagem arquetípica.


Será que a maneira deturpada que, às vezes, a deusa é imaginada não atrapalha a nossa própria experiência de vida? E como e por que isso ocorreu?

Descubra abaixo as respostas para essas perguntas.



Afrodite na Antiguidade Grega

Existem algumas versões sobre o nascimento de Afrodite. A mais conhecida diz que a deusa do amor surgiu do encontro dos testículos co­bertos de sêmen de Urano com as águas do mar, aos arredores da Ilha de Chipre, na Grécia.


Além de fazer brotar flores por onde passava, Afrodite atraía a atenção de todos os deuses e de todos os mortais por sua beleza. Era encantadora e magnética. Não é à toa que a beleza nas coisas e nas pessoas atraem como um ímã para perto.


Todo esse magnetismo presente nas relações humanas afetivas deixava os gregos, ainda na Antiguidade, com um pé atrás com a deusa. Aquilo que não entendemos, tememos. Os gregos tratavam Afrodite como uma deusa selvagem.


Essa “animalidade” era destinada à natureza do que a deusa representava, a das paixões e a dos arrebatamentos pelo desejo sexual. Ainda assim, devotavam a ela o respeito que se devotaria a algo misterioso e indomável.


As outras faces de Afrodite

Ao longo da história, dividiram Afrodite em duas: a que ficou com a característica telúrica era a Afrodite Pandemia, a mais antiga, a que une as pessoas para o ato sexual; a outra, mais divinizada, era a Afrodite Urânia.


A energia que caracteriza Afrodite também pode ser pinçada em outras culturas: Oxum, da religião Iorubá, rainha das águas doces, da beleza, e da riqueza; Inanna ou Ishtar, para os sumérios; e também uma das faces da deusa Isis, do Antigo Egito, governanta da fecundidade e do amor.


A valorização dos temas orquestrados por essas deusas se expandia por diversos povos do mundo antigo, o que nos leva a pensar que esses eram temas necessários, vitais para a realização do ser humano e da vida em sociedade.


O culto à Vênus na Roma Antiga

O poder de Afrodite ultrapassou as fronteiras da Grécia e foi absorvido e incorporado pelos romanos. A deusa ganhou um outro nome: foi chamada de Vênus. Roma ainda era uma República quando foi construído o primeiro templo dedicado à deusa, por volta de 215 a. C.


Alguns célebres personagens históricos da Roma Antiga declaravam que descendiam de Vênus. Foi o caso do líder militar romano Júlio César e de seu filho adotivo Augusto, o primeiro imperador de Roma.


César era extremamente devoto à Vênus: dizia-se que antes mesmo das batalhas o general romano rezava para a deusa e foi dela também que ele reconhecia ter recebido o dom da eterna juventude.


Os antigos romanos já entendiam que os temas ligados à Deusa não estavam restritos apenas ao feminino. Vênus também é uma força que existe no inconsciente masculino.


O poder venusiano foi utilizado dentro da política romana. Como estratégia para perpetuar a origem divina da linhagem Júlia, durante o governo de Augusto foram resgatadas tradições antigas e o culto à Vênus. O poeta Virgílio, na obra Eneida, diz que a linhagem Júlia foi unida pelas raízes de Vênus lançadas na terra.


Como os romanos se orgulhavam de serem um povo guerreiro, a deusa do amor e da sexualidade também ganhou ares de deusa da guerra e da vitória: surgiu, então, a Vênus Victrix.


Foi assim que, em Roma, Vênus foi atualizada a bel-prazer dos romanos, ao incorporarem as características do povo à deusa. O culto ao belo e aos prazeres da vida também estava manifestado no cotidiano dos romanos. Não é à toa que os italianos são vistos, ainda hoje, como hedonistas, voltados aos prazeres. Talvez seja uma herança dos romanos.


Da carne às telas

Conhecemos hoje tanto a história da Roma Antiga pela grande quantidade de relatos criados por eles, como a obra Eneida.


Além dos escritos, algumas obras de arte resistiram ao tempo. As pinturas, por exemplo, eram mais do que obras de arte, eram produtos de luxo e de ostentação.


Se entrássemos numa casa de algum aristocrata romano, veríamos a grande quantidade de arte pelos cantos dos aposentos. Quanto mais pinturas, mais riqueza a pessoa aparentava ter. E os romanos antigos não economizavam para parecerem ricos. O cônsul Agrippa pagou 1,2 milhões de sestércios por duas pinturas figurando Ájax e Vênus. Em uma aproximação para os dias atuais, essa quantia equivaleria a cerca de 7 milhões de euros.


Às vezes, a empolgação com a figura de Vênus era tanta que não se limitava às pinturas e às esculturas. Elas iam para a carne. Não como a força do embelezamento ou da sexualidade, mas como atuação: algumas vezes o imperador Calígula se fantasiava de Vênus em seus banquetes.


Afrodite: a deusa negada

Se a energia do amor, da beleza e da sexualidade estavam ganhando espaço no cotidiano dos antigos, ao longo dos séculos os assuntos ligados à Afrodite foram pouco a pouco sendo negados, restringidos e castrados.


Com a aparição e consolidação do cristianismo no Ocidente a partir da Queda do Império Romano, no século IV, e expandido durante toda a Idade Média, Afrodite foi uma das deidades antigas mais reprimidas pela nova religião.


Tudo o que a deusa representava foi banido, repreendido, rebaixado e varrido para debaixo dos panos. É como diz a frase do escritor Stewart Farrar: “os deuses da antiga religião sempre se tornam os diabos da nova”.


O prazer, a sexualidade, o belo, a espontaneidade das emoções, o encantamento pelo mundo, as sensações, a imaginação e o próprio feminino foram varridos junto com Afrodite – tratados como temas sujos e proibidos durante os últimos séculos da história do Ocidente; a moralidade sufocou e catequizou a espontaneidade dos prazeres.


O escritor Gustavo Barcellos nota que “cultura monoteísta judaica-critã o belo é desconfiável – o belo é entendido como algo desviante. Houve a separação entre ética e estética, separação essa que não existia para os gregos. Para os gregos é belo porque é bom, é bom porque é belo”.


O desejo e a beleza sufocados na carne passaram a existir nas esculturas e nos quadros: locais seguros para a contemplação. Algumas representações de Afrodite ganharam o público, como o quadro O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, em que a deusa surge de uma concha, como se fosse uma pérola.


Podemos fazer uma interpretação atualizada dessa cena: o que faz gerar uma pérola são os grãos de areia intrusos dentro de uma concha, como os próprios temas negados de Afrodite, pois geram incômodo e dor.


A fúria de Afrodite

O pensamento santificado teve a intenção de purificar a carne, mas se por um lado esterilizou o pensar voluptuoso, por outro fez nascer os traumas e os complexos.


É como explica a Psicanálise: tudo o que é reprimido, retorna. E retorna com muita força. A força irada do que foi oprimido por séculos.


Em um episódio da série Deuses Americanos, temos essa ilustração sobre o ostracismo de Afrodite. A rainha de Sabá é encarnada na personagem Bilquis, que apresenta características da deusa. Depois de séculos de esquecimento, Bilquis chega aos nossos dias e se depara com uma sociedade em que as divindades não são mais cultuadas, mas sim pessoas comuns por meio das mídias digitais.


Podemos ler essa cena como se não houvesse mais espaço para Afrodite, pois Narciso já tomou conta: as pessoas sentem necessidades de serem cultuadas no reflexo da tela para existirem – em vez de elas se amarem e amarem o próximo, como é o mandamento de Afrodite.


É assim que em outras manifestações percebemos os temas de Afrodite escoando pelo ralo: a liquidez dos afetos, a hiperexcitação por objetos, o enaltecimento do utilitarismo e do grotesco, o desencantamento pelo mundo, a falta de empatia pelo que é vivo e, claramente, o desamor.


Mas vale lembrar: tudo o que é reprimido, volta. Um exemplo: a pornografia digitalizando e virtualizando o sexo, suplanta o prazer realizado na carne para o prazer voltado à tela.


O resgate da Deusa

Afrodite foi relegada a uma camada profunda da subjetividade, que precisa ser resgatada para a reparação de todas essas temáticas necessárias ao desenvolvimento pessoal e social.


A Afrodite interna de cada um precisa ser liberta da prisão em que foi trancafiada, caso queiramos viver nossas existência de uma forma realmente humana, e não como máquinas. Por isso, Afrodite funciona como um caminho para o autoconhecimento.



O Livro de Afrodite é um guia arquetípico de encontro com a divindade de Afrodite que vive em seu interior. Metade livro, metade caderno de escrita terapêutica, contém 233 exercícios e textos reflexivos e instigantes para conversar com o seu inconsciente e fazer a sua Afrodite sair da concha.


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Narração: Heryck Sangalli e Amanda Meschiatti



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