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O que é um arquétipo?

Atualizado: 15 de abr.


Mulher esculpindo estátua como metáfora para arquétipo
Foto: Jingyu Shen

Alguma vez na vida você já deve ter visto esse personagem que eu vou descrever agora: idoso, barba longa, longos cabelos brancos, andar calmo, olhar sereno, movimentos pacíficos e respostas sábias.


Quantas vezes você já viu essa figura no cinema, na literatura e em séries?


Esse é o arquétipo do velho sábio, também chamado de senex. E essa história não foi inventada ontem. Ele aparece em inúmeros contos de diferentes culturas e nos mais diversos tempos.


O velho sábio é uma fórmula trazida à consciência de um padrão da natureza que se repete, inclusive em nós, que também somos seres naturais. Ele revela a constatação de que a experiência do tempo traz a capacidade de adquirir sabedoria e de dominar o modus operandi da vida.


Ele é um arquétipo.


Se você acompanha a gente há algum tempo, já deve ter ouvido a palavra “arquétipo” várias vezes. Mas, afinal, o que é um arquétipo? De onde a gente tirou esse termo? Neste texto, você vai entender o que é um arquétipo, de acordo com a Psicologia Analítica. Você vai descobrir também se um arquétipo pode ou não ser ativado, e como o conhecimento dos arquétipos pode te ajudar.


O que é um arquétipo?

Arquétipo é um conceito muito antigo, presente mesmo nas reflexões de Platão, o filósofo grego.


Na concepção da filosofia de Platão, todas as coisas e formas de vida que existem no mundo material são expressões de algo que existe primeiro nas ideias, no que ele chamou de Mundo das Ideias ou Mundo dos Arquétipos.


A manifestação material é sempre diferente do modelo ideal, de como a coisa era em essência, no momento em que foi pensada.


O mesmo aconteceria com a nossa mente, que cria diversos “eus”, que se expressam na nossa psique e na materialidade da nossa personalidade.


No início do século passado, o psicoterapeuta suíço Carl Jung observou que esses arquétipos seriam a estrutura elementar da nossa psique.


De acordo com ele, os arquétipos são imagens universais, que existiram desde os tempos mais remotos, e que renascem em cada novo ser humano. Jung atualizou o termo, e o arquétipo passou a designar a uma estrutura do inconsciente coletivo que agiria na psique individual de cada um.


O que é o inconsciente coletivo?

Esse inconsciente coletivo funciona como um grande baú onde está armazenada toda a tradição cultural da humanidade. Imagine agora que todos nós estamos dentro desse baú. É exatamente isso o que Jung propõe. A existência de um inconsciente que vai além da nossa vivência pessoal, mas que absorve conteúdos da existência coletiva de toda a humanidade.


É assim que o simbolismo de uma cultura totalmente diferente da nossa, distante no tempo e no espaço e da qual nunca ouvimos falar, pode aparecer em elementos presentes nos nossos sonhos, fantasias, rompantes criativos, ideias delirantes, ilusões e complexos psicológicos, e na forma como vivenciamos experiências típicas da vida de qualquer ser humano, como a infância, o primeiro amor e a morte.


E é também por isso que podemos encontrar referências arquetípicas dentro de contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore. O arquétipo é um padrão coletivo, passível de ser reconhecido em todo lugar, por toda a gente, e traduzido em contos e cultura.



Como o arquétipo aparece na sua vida?

A forma é a mesma, mas o que difere é o conteúdo.


Cada pessoa, por exemplo, pode vivenciar o arquétipo do velho sábio com a sua própria assinatura, aquilo que ela coloca de seu, de sua vivência pessoal e singular. É dessa forma que esse velho sábio pode ser vivido em seus aspectos iluminados, como o da partilha e da paciência; ou em seus aspectos sombra, utilizando sua sabedoria para buscar poder a qualquer custo ou impondo a sua ferida infantil acima do seu eu atual. É o exemplo dos magos Gandalf e Saruman, em O Senhor dos Anéis.


Outro exemplo que esclarece isso de colocar o que é seu na vivência do arquétipo vem da própria Afrodite, ou melhor, da Vênus dos romanos. Explicamos melhor esse exemplo nesta matéria aqui: "A Deusa Negada".


Nos primórdios do fundamento de Roma, a Vênus Genitrix, ou mãe Vênus, era a face da deusa mais cultuada. A cidade estava nascendo e precisava lembrar que tinha sobre si os cuidados de uma mãe protetora. Mas à medida que Roma foi se tornando um império, expandindo suas fronteiras por meio de guerras, a face mais enaltecida da deusa passou a ser a Vênus Victrix, a Vênus vitoriosa, dotada de uma personalidade guerreira que não se mencionava antes.


Na mente de uma pessoa, e não de uma cidade, ocorre que o arquétipo se incorporaria de novas atitudes, sem perder a essência de amor e desejo que lhe serve de base, nascida em algum momento da criação de sua personalidade.


É o que a Psicanálise chama de repetir padrões inconscientes. No caso, a própria vivência do arquétipo do velho sábio e do arquétipo de Afrodite é a repetição de uma lógica inconsciente.


O que queremos dizer quando falamos de arquétipos de deuses e deusas?

Antes de Freud analisar as tendências à repetição e à construção de padrões e de Jung identificar e nomear esses arquétipos, os antigos gregos (e vários outros povos) organizavam essas energias que estão em nossa psique e explicavam esses padrões que assumem a direção da nossa vida.


Esses povos antigos trouxeram à superfície o simbolismo do inconsciente, daquela força que eles observavam dominar suas vidas interiores, e as traduziram em fórmulas conscientes transmitidas pela tradição por seus aedos contadores de histórias.


Nossas potencialidades e sombras internas se transformaram na saga de cada deus ou deusa.


Essas histórias nos ajudariam (e ainda nos ajudam) a orientar a trajetória dos heróis, heroínas, deuses e deusas que vivem no inconsciente de cada um. Ou, como resume o mitólogo Joseph Campbell, dariam as pistas para as potencialidades espirituais da vida humana nos fazendo avançar na vida.


A psicoterapeuta Jean Shinoda Bolen, por exemplo, tem um compilado de estudos sobre a observação clínica dos arquétipos de deuses e deusas da mitologia grega no comportamento de seus analisados. É como se cada pessoa tivesse, ao invés do velho sábio, um deus ou deusa gerenciando suas escolhas, ações, pensamentos ou modos de ser. Comumente, mais de um na sala de controle. Embora você tenha todos eles vivendo dentro de você, alguns deles ocultos e pedindo socorro.


Nesta publicação, "O que as deusas da mitologia grega tem a ver com a psicologia de cada pessoa?", explicamos um pouco sobre os arquétipos das deusas gregas e como eles costumam agir no inconsciente. Vale a pena dar uma olhada!


Podemos ativar arquétipos?

Agora que você sabe disso. Deve estar se perguntando: “mas como ativar esses deuses que estão pedindo socorro dentro de mim, e que representam exatamente a energia o que eu preciso para equilibrar minha vida? Dá pra ativar um arquétipo?”.


Jung escreveu que os conteúdos psíquicos transpessoais não podem ser manipulados à vontade, pois exercem uma força de atração sobre a consciência. Não podemos, como os produtores de Marilyn Monroe a levaram a fazer, viver sob a luz constante de Afrodite, por exemplo, tentando representar a encarnação do amor, da sexualidade e da beleza, e negando a mulher de carne, osso, sentimentos e aspirações próprias, que era Norma Jeane (a mulher por trás do ícone).


O que podemos fazer, como ensinou a psicanalista junguiana Jean Shinoda Bolen, é conversar com o simbólico em nós. O que se faz com um processo de autoconhecimento. Podemos nos expor aos temas de cada deus buscando aprender com ele é o caminho. Foi isso que fizemos nO Livro de Afrodite, por exemplo. Saiba mais clicando aqui!


Se o inconsciente é estruturado em forma de linguagem, entendemos que ler sobre o assunto, se provocar com perguntas e escrever nossos próprios pensamentos sobre esses temas é um caminho possível para ativar forças e colher a sabedoria de determinado arquétipo, forças e sabedoria que já existem em nós, como parte do inconsciente coletivo.



Precisamos acreditar nos deuses das religiões antigas para estudar os arquétipos?

O estudo dos arquétipos, como trazemos aqui, é um estudo desapegado de crenças. Aprender sobre os arquétipos é um exercício de autoconhecimento, de compreender os nossos próprios padrões, vícios, ciclos repetitivos, perspectivas e poderes que podemos trazer ao mundo.


Embora essa estrutura tenha sido traduzida pelas culturas antigas em uma linguagem religiosa, com deuses e deusas, estudar os arquétipos à luz da psicologia profunda não tem implicação religiosa. Não significa que você deva cultuar os deuses dos gregos e negar a sua fé.


Significa, sim, absorver o simbólico dessas histórias, pois o símbolo é a linguagem com a qual o inconsciente se comunica.


Para nós, esses deuses e deusas objetos de veneração em muitas religiões, antigas e atuais, podem ser vistos como a personificação de uma energia que habita o indivíduo, e que por isso deve ser vista como sagrada e importante.


Conhecer esse sistema simbólico é uma forma de entender a si mesmo, se aceitar como indivíduo e transcender. Porque é só quando nos aceitamos que podemos ser melhores ainda com nós mesmos.


Preparamos um dos vídeos mais complexos e sintéticos sobre o assunto que você vai encontrar na internet.


Este conteúdo faz parte do Podcast Imago Mundi. Aperte play para ouvir e aproveite para nos seguir no YouTube e não perder nenhum conteúdo sobre autoconhecimento, arquétipos e escrita terapêutica.

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Narração: Amanda Meschiatti e Heryck Sangalli


A Inspira lançou O Livro de Afrodite - um guia arquetípico de encontro com a divindade de Afrodite que vive em seu interior. Metade livro, metade caderno de escrita terapêutica, contém 233 exercícios e textos reflexivos e instigantes para conversar com o seu inconsciente e fazer a sua Afrodite sair da concha.


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