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A frequência da cura: conheça os sons capazes de mudar o seu estado mental

Este texto foi publicado originalmente na Revista Inspira, edição #4, janeiro de 2020.


Uma música para acalmar; outra, para agitar. Qual a diferença entre elas? Pode ser a frequência, que age diretamente no seu cérebro. Sintonize agora as frequências da cura: solfeggios, batidas binaurais e tons isocrônicos.


Unhas arranhando o quadro negro, barulho de mastigação, pessoas brigando: só de pensar, algumas pessoas ficam irritadas. Em contrapartida, pássaros cantando, água corrente, música clássica podem trazer estado de relaxamento.


O som tem influência direta em nossas emoções e percepções espaciais. Não à toa, o teatro – e mais tarde também o cinema – utiliza o som para dar ênfase às cenas e causar arrepios e tensão nos espectadores.


Nas grandes cidades, somos bombardeados por uma sinfonia dissonante de ruídos. O barulho do trânsito pode ultrapassar 90 decibéis – acima do nível de 50 decibéis estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a média para a saúde auditiva.


Mas não precisamos ir à rua para “esquentar” nossos ouvidos. Em nossa própria residência, a TV ligada, o som do rádio na cozinha, pessoas conversando, outras escutando os memes do WhatsApp e dando gargalhadas, podem nos colocar sob tensão.


Como esses barulhos nos colocam em estado de alerta, a longo prazo também podem afetar nossa saúde, como no aumento do estresse e da ansiedade. Mas o veneno-auditivo também pode ser o remédio. O que depende é a dose – ou a frequência de hertz (Hz).


O SOM E NOSSA SAÚDE

Se os sons podem nos levar a estados de estresse e de ansiedade, estudos mostram que eles também podem ajudar na nossa saúde.


As obras musicais do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, por exemplo, são objetos de análise e intrigam os cientistas ao mostrarem que têm efeito analgésico e calmante, como apontou um estudo realizado na Universidade de Utah, nos Estados Unidos. Outras pesquisas chegaram a relacionar as obras de Mozart com a melhora da capacidade cognitiva.


Há também quem faça um paralelo entre o que sentimos e o que ouvimos, como o Professor Stefan Koelsch, do Departamento de Psicologia Médica e Biológica, da Universidade de Bergen, na Noruega, que estuda a relação entre a música e as nossas emoções.


“Estudos funcionais de neuroimagem sobre música e emoção mostram que a música pode modular a atividade em estruturas cerebrais que são crucialmente envolvidas na emoção, como amígdala, núcleo accumbens, hipotálamo, hipocampo, ínsula, córtex cingulado e córtex orbitofrontal. O potencial da música em modular a atividade nessas estruturas tem implicações importantes para o uso da música no tratamento de distúrbios psiquiátricos e neurológicos” (em tradução livre), aponta Koelsch, num artigo científico publicado na revista Nature Reviews Neuroscience, em 2014.



AS FREQUÊNCIAS DA CURA

A diferença entre um som agradável e um barulho que nos causa repulsa é a sua frequência. Mais precisamente, a diferença em hertz – que é a medida de ciclo por segundo. O motivo de a unha no quadro negro nos deixar irritados é estar entre 2000 e 5000 Hz – espectro esse que nosso ouvido se incomoda.


No entanto, frequências mais baixas tendem a nos agradar. Se você passasse pelos arredores de uma Igreja Católica, em algum momento da Idade Média, escutaria os cantos litúrgicos gregorianos. Aos poucos, poderia ser tomado por um estado de relaxamento e bem-estar, tendo em vista que os cânticos eram entoados com frequências especiais para transmitirem bênçãos espirituais. Porém, em algum momento, esses cânticos foram perdidos (ou mesmo proibidos).


Após a segunda metade do século XX, estudiosos como Dr. Joseph Puleo e Dr. Leonard Horowitz, redescobriram as frequências perdidas. As Frequências Solfeggio, como são conhecidas hoje em dia, são uma série de sons em que a frequência está destinada à cura interior. Uma das mais difundidas por Horowitz é a de 528 Hz, que a considera como a frequência do amor e da cura.


Ao total, são seis frequências Solfeggio: 396 Hz, 417 Hz, 528 Hz, 639 Hz, 741 Hz, 852 Hz. Além dessas, há quem inclua uma sétima: 963 Hz.


Ao longo do tempo, cada frequência Solfeggio foi associada a uma parte dos sete chakras – que são pontos de vórtices de energia em nosso corpo de acordo com a sabedoria ancestral indiana. Essas frequências são utilizadas também como som de fundo para meditação voltada a cada chakra do corpo. Veja em nosso box ao lado o que cada frequência corresponde.


Outro tipo de som que utilizado como forma de buscar a cura são as Batidas Binaurais. Descobertas pelo cientista polonês Heinrich Wilhelm Dove no século XIX, a lógica é tocar, ao mesmo tempo, tons ligeiramente diferentes para o ouvido esquerdo e para o direito. O cérebro compensa essa variação criando um terceiro som. Assim, o efeito benéfico é sentido no corpo. Neste caso, é aconselhado o uso de fones de ouvido para escutar as batidas.


As Batidas Binaurais são divididas em quatro grupos: padrão Delta, as mais lentas (entre 1 e 3 Hz), é associado ao sono mais profundo e ao inconsciente; padrão Theta, entre 4 e 8 Hz, está vinculado ao sono leve, meditação e criatividade; padrão Alpha, entre 8 e 14 Hz, tem como função relaxamento, facilidade na aprendizagem, redução de estresse e pensamentos positivos; Beta, entre 14 e 40 Hz, pode ajudar a promover a concentração e a atenção plena, bem como pensamento analítico.


Outros benefícios potenciais das Batidas Binaurais são: diminuição do estresse e da ansiedade, maior concentração e foco, bem como auxílio para uma meditação mais profunda.


Além da frequência Solfeggio e das Batidas Binaurais, existem os Tons Isocrônicos. A diferença entre eles é que tanto Solfeggio quanto as Batidas Binaurais são compostos por ruídos contínuos. Já os Tons Isocrônicos são batidas simétricas e regulares de um mesmo tom, ligados e desligados criando uma espécie de pulsações. O que determina a frequência é a quantidade de pulsações por segundo. Neste caso, não há a necessidade de fones de ouvidos para serem escutados.


Em comparação com as Batidas Binaurais, os Tons Isocrônicos são mais fáceis de serem assimilados pelo cérebro por serem compostos por uma única frequência.


Os Tons Isocrônicos são divididos em cinco: Beta, de 12 a 30 Hz, associado ao estado de alerta e ao raciocínio lógico; Alpha, de 8 a 12 Hz, frequência ligada ao estado de relaxamento da consciência, bem como à criatividade e à concentração; Theta, de 4 e 7 Hz, relacionado ao estado de sono leve à fontes de intuição e de autocura; Delta, de 0,5 a 4 Hz, a mais lenta entre as frequências e está associado ao sono profundo; e, por último, a Gama, acima de 38 Hz, que é a mais rápida e é destinada à atividade mental mais alta e a um processamento maior de informações.


DE OUVIDOS ABERTOS

O que você anda ouvindo? Podemos notar a influência direta entre o que ouvimos e as nossas reações, que também englobam, a longo prazo, nossas emoções e nossa saúde. Muitas das frequências aqui apresentadas estão disponíveis na internet.


Muito antes de termos essas gamas de frequências à distância de poucos cliques, lá pelos idos da Grécia Antiga, o filósofo Platão alertava sobre a importância do que ouvimos. Na obra A República, o diálogo socrático é muitas vezes perpassado pela importância da música – diretamente ligada à alma. Para Platão, há ritmos bons e ruins, que devem ser escolhidos com cuidado, devido ao poder de penetrarem na alma – como aquela música chata, mais próxima de um disco arranhado, que custa em sair de nossa cabeça. Tempos depois, com uma perspectiva um pouco diferente da anterior, Aristóteles também lançava luz sobre a relevância da música, acrescentando um tom catártico à melodia – o que hoje seria mais próximo do velho ditado “quem canta, seus males espanta” –, mas, mesmo assim, sob à égide da boa escolha do que ouvir.


Então, saber escolher para que frequência estamos de ouvidos abertos é fundamental. Ainda mais em tempos em que dissonância dos ruídos e das palavras se tornam cada vez mais ensurdecedoras. Esteja todo ouvidos às boas frequências!