Corrida: do instinto de sobrevivĂȘncia ao prazer em estar vivo
- 21 de jul. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de abr. de 2022
Este texto foi publicado originalmente na Revista Inspira, edição #2, agosto de 2019.

Foto: ijeab/ Freepik
Do instinto de sobrevivĂȘncia aos recordes por centĂ©simos de diferença. Quando começamos a correr e como os passos acelerados trazem benefĂcios Ă nossa saĂșde.
AONDE NOSSOS PĂS NOS LEVARAM
TĂĄlus, calcĂąneo, cubĂłide, falanges, entre outros nomes nĂŁo muito conhecidos formam a estrutura Ăłssea de nossos pĂ©s. Cada pĂ© Ă© constituĂdo por 26 ossos, no total. Eles sĂŁo unidos pelos ligamentos e, assim, formam as articulaçÔes.
Como em uma mĂĄquina, cada peça tem sua função especĂfica. Sem os dedos dos pĂ©s, por exemplo, nosso equilĂbrio seria prejudicado. Nos dias de hoje, porĂ©m, essa deficiĂȘncia Ă© facilmente contornada com calçados ortopĂ©dicos.
AlĂ©m de nos dar equilĂbrio e apoio para andar, ao longo da histĂłria, os pĂ©s nos levaram longe, a distĂąncias continentais. Foi hĂĄ 70 mil anos que os Sapiens saĂram da Ăfrica para pisar em outros continentes.
E o salto temporal é ainda maior se pensarmos quando nossos pés começaram a nos movimentar para a vida.
Ao lembrarmos os filmes que retratam a PrĂ©-HistĂłria, alĂ©m da carne crua sendo destrinchada pelos dentes, uma das imagens subsequentes sĂŁo dos humanos correndo â atrĂĄs da presa ou fugindo para nĂŁo ser uma. A corrida, portanto, Ă© um dos nossos primeiros mecanismos para a preservação de nossa vida.
A CORRIDA NA HISTĂRIA
Alguns longos passos temporais depois â mesmo ainda longe de nossos pĂ©s calçados com inĂșmeras marcas comerciais -, ali pelas proximidades do Antigo Egito, o faraĂł Taraca, da XXV dinastia, criou uma corrida de longa distĂąncia para desenvolver o prepara fĂsico de seus soldados.
Hoje, os "modestos" 100 km do faraó Taraca são percorridos não por soldados, e sim por corredores que levam aos limites seus desempenhos. Conhecida como Pharaonic 100 km, a ultramaratona começa na pirùmide de Hawara, em Faium, e tem sua linha de chegada nas pirùmides de Sacara, no Cairo.
PrĂłximo da Ă©poca do faraĂł Taraca, mas em outro continente, jogos que incluĂam a corrida começavam a movimentar a sociedade de Atenas, na GrĂ©cia.
Os Jogos OlĂmpicos da Antiguidade - datados de terem inĂcio entre 774 e 776 antes da Era Comum - eram um festival que misturava esporte e religiĂŁo. De quatro em quatro anos, a pĂ© ou carregando armas, os corredores honravam a Zeus e a outras deidades percorrendo distĂąncias muito menores que as das maratonas atuais - Ă s vezes, menos de 500 metros.
Ainda dos tempos da GrĂ©cia Antiga, reza uma lenda que durante a Primeira Guerra MĂ©dica, entre os gregos e os persas, em 498 antes da Era Comum, um homem chamado Pheidippides ficou encarregado de levar a notĂcia da vitĂłria grega a Atenas.
EntĂŁo, ao chegar ao seu destino, o homem, que supostamente teria corrido cerca de 35 quilĂŽmetros, apĂłs contar a informação, caiu morto. A batalha que os gregos venceram teria sido a de Maratona â palavra que inspirou os primeiros Jogos OlĂmpicos da era moderna, realizados em Atenas, a partir de 1896.
Outros, no entanto, relatam que a história de Pheidippides foi ainda mais heroica. Nessa outra versão, o homem teria corrido 240 km de distùncia, de Atenas até Esparta, não para informar sobre a vitória na guerra, e sim para pedir reforços.
ESPORTE DEMOCRĂTICO
A corrida Ă© associada a outro termo que tambĂ©m remete Ă GrĂ©cia Antiga. Ela Ă© considera um esporte democrĂĄtico, tendo em vista sua facilidade de execução. Quase qualquer pessoa pode correr, em quase qualquer lugar. Basta calçar um tĂȘnis, ou mesmo descalço na areia da praia, e colocar o corpo em movimento.
Existem vĂĄrias modalidades de corrida, desde as com 100 metros, em que a explosĂŁo de velocidade e a cadĂȘncia dos passos do atleta sĂŁo fatores importantes, atĂ© as maratonas com seus 42 km ou mais, em que a resistĂȘncia Ă© o que faz cruzar a linha de chegada e levantar os braços Ă frente de outros corredores.
A corrida Ă© tĂŁo versĂĄtil que hĂĄ nomes especĂficos para cada ambiente. As corridas Cross Country, por exemplo, sĂŁo feitas em terreno aberto; a corrida na montanha, como o nome jĂĄ diz, Ă© um percurso repleto de subidas e descidas em montanhas; jĂĄ na corrida trail, os passos sĂŁo dados em trilhas, bosques ou praias.
Também existem modalidades mais recentes que reinventam a clåssica corrida ao agregar outros elementos. Os praticantes do Plogging, por exemplo, buscam atravessar juntos a marca da sustentabilidade ambiental. Criado em 2016 pelo ambientalista Erik Ahlstrom, o Plogging é uma pråtica esportiva que alia corrida e coleta de lixo.
Dentro dessa gama de possibilidades, a dica mais frequente para quem estĂĄ começando no esporte Ă© fazer intervalos entre corridas leves e caminhadas. Com o tempo, o preparo fĂsico serĂĄ desenvolvido juntamente com a resistĂȘncia, e a quilometragem aumentarĂĄ gradualmente.
Sendo assim, vocĂȘ nĂŁo precisa ser como Pheidippides e correr 35 ou 240 km, nem mesmo disparar por 100 metros em pouco mais de 9 segundos, como fez Usain Bolt, o multicampeĂŁo olĂmpico de nossos tempos. Esse âpouco maisâ, em verdade, sĂŁo 58 centĂ©simos. Para Pheidippides talvez essa fração de segundo nĂŁo salvasse os gregos do ataque persa, mas para Bolt sĂŁo eles que o coroam com um recorde mundial.
CORRENDO EM BUSCA DE SAĂDE
Que a corrida Ă© um esporte chamado de democrĂĄtico pela facilidade de praticĂĄ-lo, nĂłs jĂĄ sabemos. Mas vocĂȘ sabia que hĂĄ vĂĄrios benefĂcios na saĂșde com aqueles passos acelerados?
Esses mesmos passos acelerados funcionam como antĂdoto para outro tipo de passos acelerados: os passos dados para conseguir cumprir os compromissos e que causam o estresse.
Foi o que mostrou uma pesquisa realizada pelo GEPECOM da Universidade de SĂŁo Paulo (USP). Dos 1.154 que participaram do levantamento, 90% apontaram que se sentem menos estressados apĂłs uma corrida.
Os estudos cientĂficos estĂŁo a passos largos confirmando os benefĂcios da corrida. Segundo uma revisĂŁo de evidĂȘncias publicada na revista Progress In Cardiovascular Diseases, os corredores vivem trĂȘs anos a mais do que os nĂŁo corredores.
Na mesma revisĂŁo, os autores ainda afirmam que uma hora de corrida aumenta a expectativa de vida em sete horas. Ou seja, nĂŁo precisamos de muito tempo para que a corrida tenha impacto positivo em nossa saĂșde.
Se vocĂȘ nĂŁo consegue correr, caminhar tambĂ©m traz benefĂcios Ă saĂșde. Ă isso que defende o neurologista JosĂ© Ăngel Obeso, diretor do Centro Integral de NeurociĂȘncias de Madri, na Espanha.
Segundo o neurologista, a rotina Ă© inimiga do cĂ©rebro. Portanto, quando caminhamos, a mente fica mais ativa e alerta, porque nossa atenção se foca nos movimentos e no ambiente. Muito alĂ©m do emagrecimento, o exercĂcio provoca a ebulição de todos os hormĂŽnios ligados Ă felicidade e nosso cĂ©rebro nos deixa mais otimista.
Com o passar dos dias, a caminhada tem efeito terapĂȘutico: o cĂ©rebro Ă© oxigenado e por consequĂȘncia isso desencadeia atĂ© mesmo numa melhora na criatividade. Movimentar o corpo transforma a mente; e a mente transformada modifica o corpo.
HĂĄ outro benefĂcio da prĂĄtica de exercĂcio que tambĂ©m ocorre na cabeça. A transformação ocorre mais especificamente no hipocampo, a parte responsĂĄvel pela memĂłria e pela capacidade espacial. Segundo investigaçÔes realizadas em camundongos pelo The Salk Institute for Biological Studies, a prĂĄtica de exercĂcio pode estar diretamente ligado Ă plasticidade cerebral, que Ă© a capacidade de criarmos novos neurĂŽnios em qualquer fase da vida.
Que tal, entĂŁo, evitar chutar o balde para dar o pontapĂ© inicial correndo em busca de saĂșde?
Mas antes de começar, se possĂvel, lembre-se de estar com exames mĂ©dicos em dia.
