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FoMO: a fome da alma

Atualizado: Jan 28




Você tem medo de não estar vivendo “direito”? Essa pode ser uma grande questão filosófica. Mas, na maioria das vezes, não passa de comparação entre a sua vida e a das pessoas com quem você se conecta. Acontece que, com as redes sociais, as pessoas com as quais nos conectamos não se apresentam em sua inteireza. As vulnerabilidades e os dias nublados são delet


ados, e ficam apenas os registros do tipo “as 100 coisas para fazer antes de morrer”: pessoas comendo nos melhores restaurantes, indo ao festival de música mais famoso do momento, explorando países exóticos, fazendo as declarações de amor mais apaixonadas e construindo carreiras de sucesso.


Em resumo, parece que todo mundo vive na euforia de uma sexta-feira à noite, e nunca na monotonia de um domingo ou com o senso de responsabilidade de uma segunda-feira de manhã.


E é assim que temos nos acostumado a pensar que a vida deve ser.

No Poema em Linha Reta, Fernando Pessoa escreve: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. E nisso somos levados a crer que nossa vida é diminuta demais. Devemos estar perdendo algo e uma atitude precisa ser tomada!


Essa apreensão de que os outros possam estar tendo experiências gratificantes das quais não fazemos parte é um fenômeno que desde o início do século tem ganhado corpo. É conhecido pelo acrônimo FoMO (Fear of Missing Out – ou em tradução livre: “medo de estar perdendo algo”, “medo de ficar de fora”) e uma pesquisa da Universidade de Essex apontou que mais de 75% dos adultos conectados à internet já passaram por isso.


Pelo dicionário de Cambridge, FoMO é descrito como “a ansiedade causada pela sensação de estar perdendo eventos emocionantes que outras pessoas estão vivendo, e que é agravada por coisas que vemos nas redes sociais”.


CONECTADO 24/7

Uma das manifestações do FoMO é o desejo de permanecer conectado ao que os outros estão fazendo. Essa é uma forma de não perder nada. Ainda que digitalmente. De acordo com pesquisa recente realizada pela Hibou e divulgada este ano, 91% dos brasileiros não conseguem ficar longe do celular por mais de uma hora. Além disso, 60% dos entrevistados afirmaram que perdem a noção do tempo vendo posts e vídeos no celular e são 66% os respondentes que afirmaram dar uma olhada no celular caso acordem no meio da noite.


Dificilmente estamos concentrados na realização de uma única atividade por vez, presentes no momento. Acordamos e vamos dormir tendo o smartphone como primeira e última imagens do nosso dia. Mexemos nele enquanto comemos e tem gente que o carrega até mesmo para o banheiro. Ás vezes, assistimos à televisão com uma segunda tela, o celular, comentando tudo em nossas redes sociais ou mesmo entrando em contato com outros tópicos de assunto ao mesmo tempo. Rolamos os infinitos feeds até que não tenhamos mais atualizações (o que é quase impossível) e checamos o celular a todo tempo só para ter a certeza de que não recebemos alguma notificação, por mais insignificante que fosse.


SER É SER PERCEBIDO

O termo FoMO foi utilizado pela primeira vez pelo estrategista de marketing norte-americano, Dan Herman. Não, ele não surgiu na área da psicologia, como você pode ter imaginado. Ele está inserido no campo do consumo. Afinal, quer gatilho de vendas maior do que mexer na ferida do pertencimento? Todos queremos ser incluídos, fazer parte de algo. E é como se acompanhar a vida dos outros e também ser visto por eles originasse sensações que confirmariam a nossa existência.


"Não vai ficar de fora dessa, vai?". Essa é uma frase que, com certeza, você já ouviu ou leu em alguma peça publicitária. Acontece que estamos vivendo como se estivéssemos dentro de um comercial e ninguém quer ficar de fora. Inclusive, foi usando esse gatilho que os organizadores do Fyre Festival – um pretensioso festival de música nas Bahamas que virou tema de documentário da Netflix – venderam 95% dos ingressos disponíveis para o evento em menos de 48 horas de divulgação. Com o tempo, o festival demonstrou ser uma tremenda fraude, mas também uma prova legítima do poder de persuasão dessa tática.


Desse modo, uma outra manifestação do FoMO consiste na busca – quando possível – de uma pseudo-onipresença: estar em todos os lugares, o tempo todo, fazendo tudo o que a vida tem a oferecer, aceitando todos os convites e fazendo check-in em tudo o que for possível!


O filósofo alemão Christoph Türcke, já em 2010 – antes da febre das redes sociais – disserta sobre isso em seu livro Sociedade Excitada. Para o acadêmico, o quadro geral vai muito além de ficar ligando o celular toda hora para checar se recebemos alguma notificação, a fim de receber novas sensações e mostrar que permanecemos “existindo”. Essa estrutura se manifesta também na busca tátil e sensitiva que vai parar nas mesas de cirurgia plástica, nas tatuagens, nos piercings e no alto das montanhas, com os esportes radicais. Tudo faz parte de uma tentativa de causar e receber aquelas sensações que se vê na TV (as imagens, cores, cortes e recursos linguísticos eletrizantes e prazerosos que nos afetam de alguma forma) e, agora, também nas redes sociais.


Seguindo a linha de pensamento do marketing de Dan Herman, o que Türcke sugere é que a publicidade é uma forma que invadiu a vida: “Todas as instâncias da sociedade devem se comportar como a propaganda, isso é fazer sensação” e, em adendo, estar sempre emitindo para existir.


Segundo ele, ao mesmo tempo em que as mídias nos ditam um estilo de vida sensacional, rico em experiências, cores, imagens e sensações, mais nos damos conta de termos uma vida “vazia”. E assim surge o chamado sensation seeking, a busca por sensações, uma verdadeira compulsão em se misturar ao universo das sensações e poder mostrar que se “vive”. Na edição digital da Revista Inspira #3, você encontra um teste para medir se você está se comportando como um caçador de sensações. Clique aqui para ver!


O mostrar que se vive é muito importante para quem está inserido em comportamentos do tipo FoMO. Quantas vezes você já foi a um show, batizado ou festa de aniversário e viu as pessoas com seus celulares gravando uma experiência que elas jamais poderão repetir e, nem tampouco, voltarão a assistir em seus dispositivos?

E aí surge novamente a pergunta: “Será que você está vivendo ‘direito’?”, dessa vez explorando uma camada mais profunda. Quem perde o momento presente em virtude de uma digitalização do real está, de fato, vivendo? Tudo consiste em “viver” para o olhar do outro? Estamos sendo sugados para uma realidade digital. Pesquisadores falam inclusive de uma nova territorialidade que se constrói a partir dessa vivência na internet. A vida off-line não importa tanto?


O QUE FAZER?

Se você detectou que esse tipo de sensação tem habitado integralmente seu modo de ser e existir, é necessário que se faça uma autoanálise.


Alguns lançam mão de um movimento em resposta ao FoMO, o JoMO (Joy of Missing Out, em tradução livre: “prazer em ficar de fora”). Como o nome já diz, esse contramovimento propõe silenciar a vida nas redes sociais, utilizando a internet de forma mais inteligente, sem ficar se comparando. A filosofia de vida do JoMO tem a ver com aceitação da vida como ela é e viver o momento presente.


A internet nos apresentou diversas possibilidades de ser e estilos de vida. Mas você não precisa ser nada além de você mesmo, e isso é bem simples, provavelmente você já está fazendo isso agora. O que precisamos é saber eleger. O que significa saber escolher as experiências que realmente queremos viver, aquelas que realmente tem a ver com o nosso projeto de vida.


É como afirma o escritor Lee Jampolsky: “Pergunte a si mesmo o que é importante. Então, tenha coragem e sabedoria para construir a sua vida dentro da sua resposta”.

Na página 41 trazemos um exercício de meditação para que você possa se conectar com o momento presente e, aos poucos, ir aprendendo a ouvir a si mesmo, desconectado das vozes alheias e das ideias de comparação e competição.


Como dizia a sua mãe, “você não é todo mundo”. E não é mesmo. Descubra o que seu repertório de vida pode lhe oferecer e não se compare mais.


Se você se identificou com as características do FoMO ou dos caçadores de sensações, procure um psicanalista ou psicólogo que possa lhe ajudar a ressignificar esses sentimentos.


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